A nova praia de Silvio

O resort dos sonhos do empresário sai do papel e mobiliza 1,8 mil operários para a construção de 36 mil metros quadrados de luxo e lazer

Por Marco Damiani

À sombra de coqueiros, pés fincados na areia, o ex-camelô mais famoso do País teve um sonho há quase dez anos. Ali, num extremo da ilha do Guarujá, no litoral de São Paulo, Silvio Santos imaginou um elegante resort, nos moldes dos que hoje costuma freqüentar no Caribe e na África do Sul. Viu-se senhor do empreendimento, mirando à volta um público de elite entre piscinas, quiosques e a praia. O sonho, agora, está se tornando real. DINHEIRO teve acesso com exclusividade na semana passada ao projeto final do resort Jequitimar, o empreendimento de R$ 150 milhões que a Sisan (Silvio Santos) Empreendimentos Imobiliários começa a construir sobre um terreno 56 mil metros quadrados debruçado na praia de Pernambuco, a 50 minutos da capital paulista. “Quero morar dentro do meu próprio hotel e tocar meu grupo de lá”, planeja Silvio Santos. “Estou realizando um sonho de quase dez anos”.
Alta hotelaria Projeto de Michel Fournier, jardins do escritório Burle Marx e bandeira Sofitel na praia de Pernambuco
O início das obras está marcado para agosto. Devem durar dois anos, mas os executivos do grupo SS já esfregam as mãos. Eles buscaram o melhor da hotelaria mundial para materializar o sonho do chefe. O projeto arquitetônico é assinado pelo franco-suíço Michel de Fournier, autor da elogiada remodelação do pier 57, em Nova York. O estudo de viabilidade financeira foi feito pela agência espanhola HIA, uma referência mundial dos negócios turísticos. A operadora dos serviço será a refinada Sofitel. A construção dos 39 mil metros quadrados de instalações ficará com a Construcap, vencedora da tomada de preços feita pelo grupo. Idéias soltas como mini-piscinas com água doce à beira mar foram inspiradas em pesquisas em resorts como o seis estrelas Atlantis Paradise, na ilha de Nassau. As compras de projetos e serviços já consumiram cerca de US$ 2 milhões. O retorno previsto para o capital investido está estimado em 10 anos. Executivos do Banco Panamericano, cujo controlador é o próprio Silvio Santos, afirmam que os recursos já estão equacionados dentro da instituição, sem a necessidade de tomar empréstimos no mercado. “Estamos trabalhando dentro de um orçamento rigoroso, detalhado etapa por etapa, solucionando cada equação legal”, diz o diretor Eduardo Velucci, amigo pessoal de Silvio, diretor do banco e responsável pela obra. “Temos o dinheiro, tudo está sob nosso controle.” Alguém quer um apoio do BNDES por aí? “Não estamos pensando nisso agora”, desconversa Velucci.
Serviços de spa com mil metros, massagens e sauna
Ao todo, o resort terá 341 apartamentos, divididos em dois prédios de três andares cada um. A área do Spa, com saletas de massagens, saunas e piscina coberta terá mil metros quadrados. As diárias custarão cerca de US$ 150 dólares nas habitações menores, com 32 metros quadrados de área. Há previsão para seis suítes do tipo presidencial. O grande diferencial para a acomodação dos hóspedes serão os 40 bangalôs a serem construídos nas encostas da ilha bem diante do hotel. Ali, o pernoite poderá custar até US$ 1,5 mil. Para conseguir as autorizações ambientais, em fase final de aprovações, o grupo se comprometeu a reflorestar toda a sua área. A idéia inicial de esticar um teleférico unindo a estrutura do hotel aos bangalôs teve de ser abdicada. Ele chegou a ser orçado, e o custo de US$ 1,5 milhão não assustou. Mas a polêmica gerada com órgãos do meio ambiente tornou a opção de transportar os hóspedes em charmosas jangadas como a ecologicamente mais correta. O despojamento dos hotéis de praia, com o máximo de tecnologia embarcada: eis a filosofia do novo resort.

Para mantê-lo povoado durante todas as estações do ano, com alta geração de caixa, entrou em cena um dos tinos comerciais – alguma duvida? – mais aguçados do País. Silvio Santos estabeleceu que o coração do hotel será um centro de convenções com capacidade para 1,8 mil pessoas. O que ele quer mesmo é atrair o turismo de negócios, em primeiro lugar. Em seguida, seu alvo é o público do rico interior paulista. Só numa terceira prioridade estão os turistas estrangeiros, cujo destino mais natural, no Brasil, são as praias do Rio de Janeiro e da região Nordeste. Neste novo empreendimento, Silvio Santos já começou ganhando desde o primeiro lance. Seu resort ficará no mesmo lugar em que, em 1962, foi erguido o famoso Jequitimar Praia Hotel – o inesquecível Jequiti. Ele teve seu auge na década de 1970, quando vips em geral freqüentavam seus bangalôs e provavam das adocicadas caipirinhas feitas no Bar da Praia. Se eram boas? Pergunte a Emerson Fittipaldi, a Florinda Bolkan, a Edson Arantes do Nascimento, aos principais nomes do Brasil daquela quadra. O Jequiti era, simplesmente, o lugar. No auge, sua dona, a senhora Veridiana Prado, proprietária da Cristais Prado, contratou o pintor Di Cavalcanti para lá morar por mais de um mês com a encomenda de fazer uma tela de grandes dimensões. Rainha do Mar, com quase cinco metros de base, passou então a decorar o hall de entrada do hotel e, no ano passado, foi vendida por US$ 600 mil em São Paulo.


Nos tempos áureos do Jequiti, Silvio Santos era o dono dos dias de domingo na Rede Globo. O SBT não existia. O apresentador costumava então a ganhar tardes inteiras no hotel, durante os dias de semana, sem muitas testemunhas, em divertidas conversas com José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni todo-poderoso global. Apaixonado pelo Guarujá e sua temperatura média anual de 28 graus, sol rasgado, praias limpas e proximidade de São Paulo, Silvio comprou uma casa a poucos quilômetros do hotel, na praia da Enseada. Ali viveu grandes veraneios com sua família, até que, em 1997, o destino sorriu (mais esta vez) para ele: escaldado em dívidas, o Jequiti foi colocado a venda.

Silvio agiu com a determinação dos vencedores. Mandou uma oferta que parecia irrecusável, de R$ 15 milhões cash por todo o imóvel. A compra incluiu o ístimo diante do hotel e a mansão dos Prado, anexa ao hotel. Foi barato. Hoje, na mesma praia de Pernambuco, casas com cerca de 20 metros de frente para o mar podem custar mais de R$ 5 milhões. O velho e bom camelô passou a ser dono de 800 metros diante da imensidão marinha, sem esquecer da charmosa ilha. “Ele tem estrela e sabe reconhecer quando ela brilha”, diz Walter Antunes Corrêa, o mais tradicional corretor imobiliário da praia de Pernambuco. “No tempo em que o Jequiti foi colocado à venda, muita gente por aqui tinha o dinheiro para comprá-lo, mas ninguém quis arriscar”. Entre as famílias de empresários que têm casas na praia estão os Diniz (Grupo Pão de Açúcar), Silveira (Agroceres), Alves da Silva (FMU) e Paula e Silva (Nadir Figueiredo). “O novo Jequiti está provocando um boom de valorização em toda a área”, afirma o também corretor Fábio Dalto.

Um dos mais entusiasmados com o empreendimento é o prefeito Farid Said Madi. Na esteira do resort, ele já acelera o projeto para a construção do aeroporto internacional do Guarujá, nos moldes do que existe em Porto Seguro, na Bahia, com porte para receber grandes aviões. Ao mesmo tempo, pretende montar um hotel escola para qualificar a mão de obra do Guarujá que vai trabalhar no Jequiti e, espera, em outros hotéis que venham a surgir a partir de agora. “Silvio Santos está reerguendo e colocando bem alto o nosso turismo”, resume o prefeito, que garante não faltar qualquer aprovação para o início das obras. Tanto assim que, na cidade, o resort é o assunto do dia há várias semanas. Na entrada do terreno, onde está fincada a placa de propriedade do Grupo Silvio Santos, todos os dias pelas manhãs pedreiros, carpinteiros, pintores e ajudantes de construção civil se juntam para buscar um emprego no futuro canteiro de obras. No terreno, engenheiros realizam neste momento os últimos mapeamentos topográficos. Calcula-se que a construção do hotel irá gerar 1,8 mil empregos diretos. “A construção em si é simples, nosso diferencial será a tecnologia agregada ao serviço do hotel”, diz Velucci.

Com seu projeto de R$ 150 milhões correndo sobre carretéis, Silvio Santos vai avisando aos amigos sobre seus planos pessoais. Ao prefeito Farid, informou que pretende passar a viver no próprio resort e de lá comandar seus negócios. Silvio, sabe-se, muda de idéias como quem muda de camisa, mas não há porque duvidar dessa sua intenção. Aos 75 anos de idade, ele já experimentou as mais diferentes emoções. Inclusive as negativas. Uma de suas filhas foi sequestrada e ele próprio passou horas sob a mira de um revólver. Nesta fase, a papelada para a aprovação do hotel estava emperrada – os primeiros esboços davam conta de duas torres com seis andares cada uma, uma heresia para os ambientalistas –, e Silvio esmoreceu. A palavra desistência rondou sua mente. Num domingo, porém, recebeu em sua casa na praia da Enseada o então prefeito do Guarujá Maurici Mariano. “Não se abata, seu caminho é avançar sempre”, disse-lhe o prefeito. O empresário recuperou o ânimo que ia se perdendo e voltou a acreditar no sonho. Sua mulher, Íris, passou a ir ela mesma verificar o terreno, incentivar o marido a fazer a obra. Com a maré a favor, Silvio Santos voltou a ter otimismo – e deu ordens para a renovação da aposta. Agora, o jogo está feito, e ele acha que ganha outra vez. “Esse hotel vai perenizar o nome do Grupo Silvio Santos”, acredita o amigo Velucci.



R$ 150 milhões é o investimento previsto pelo Grupo Silvio Santos no resort Jequitimar, onde as diárias mais caras poderão chegar a US$ 1,5 mil nos bangalôs da ilha do Mar Casado


Por dentro do resort
Suítes
341

Bangalôs
40

Piscinas
10
Quadras de tênis
6

Restaurantes
4

Centro de convenções:
1,8 mil lugares


Diárias
US$ 150 a US$ 1,5 mil

Projeto
Michel de Fourniers


Paisagismo
Escritório Burle Marx

Objetivo
Turismo de negócios

Fonte: Sisan Empreendimentos Imobiliários


Fonte: Revista ISTOÉ Dinheiro edição 404 ( matéria de capa) de 08/06/2005

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